“A origem das redes sociais é a sociedade humana”

Escritor, professor, palestrante e “netweaver”, Augusto de Franco fala da diferença entre redes e mídias sociais e sobre a importância dessas ferramentas no mundo moderno

Entrevista: Aos 61 anos, o escritor, consultor, professor e palestrante Augusto de Franco pode ser um desconhecido para muitos, mas já escreveu mais de 20 livros sobre desenvolvimento local, capital social, democracia e redes sociais. Ele é o criador e um dos “netweavers” da Escola-de-Redes – uma rede de pessoas dedicadas à investigação de redes sociais e à criação e transferência de tecnologias de “netweaving” – e de uma empresa-em-rede chamada Netweaving HCW.

Alguns de seus conceitos parecem complicados, mas basta uma conversa para Augusto explicá-los de forma simples. Especialista na formação de redes sociais, ele faz questão de ressaltar que essas redes já existem muito antes da invenção de sites como Orkut, Facebook, Twitter ou qualquer outro site. “Deve-se tomar cuidado. Redes sociais não podem ser confundidas com mídias sociais”, afirma com frequência. Redes sociais são pessoas interagindo, por qualquer meio. A interação pode ocorrer presencialmente ou à distância. Mídias sociais são apenas ferramentas. Como o nome está dizendo, são “meios” como o Twitter e o Facebook ou uma plataforma digital de netweaving, como o Ning ou o Elgg. Normalmente existem três grandes confusões acerca dessa distinção.

Para o professor, redes sociais correspondem a pessoas interagindo por qualquer meio. Já as mídias sociais são as ferramentas como Twitter e Facebook, por exemplo.

A interação acontece independentemente das nossas intenções de disciplinar o fluxo, guardá-lo ou congelá-lo

O senhor distingue mídias sociais de redes sociais. Quais são, exatamente, essas diferenças?
Redes sociais são pessoas interagindo, por qualquer meio. A interação pode ocorrer presencialmente ou à distância. Mídias sociais são apenas ferramentas. Como o nome está dizendo, são “meios” como o Twitter e o Facebook ou uma plataforma digital de netweaving, como o Ning ou o Elgg. Normalmente existem três grandes confusões acerca dessa distinção.

Quais seriam essas confusões e como poderíamos desfazê-las?
É normal confundir descentralização com distribuição, participação com interação e site da rede com rede. Ninguém pode entender o que é a rede se não entender essas diferenças. Chamamos de redes sociais aquelas que são mais distribuídas do que centralizadas. Redes mais centralizadas do que distribuídas são hierarquias. Redes sociais são ambiente de interação, não de participação. Não se pode entender a sociedade em rede sem entender a interação. O problema é que estamos tão intoxicados pelas ideologias participacionistas do século passado que confundimos participação com interação. Está aí a web 2.0 que não me deixa mentir. Tudo se resume a curtir, votar, adicionar… As caixinhas já estão prontas. Quando você clica nelas a interação já se perdeu. Só os donos dessas plataformas têm acesso aos dados que você e todos os outros participantes jogaram nos alçapões que eles construíram. Típico do participacionismo, onde há sempre uma oligarquia com poderes regulatórios. O participacionismo foi uma espécie de tentativa de salvar do incêndio os esquemas de “comando-e-controle”; um esforço para ficar fora do abismo da interação. A participação está mais ou menos como o “creative commons” está para o domínio público.

Entender a sociedade em rede é entender as redes, e entender as redes é entender a fenomenologia da interação. Nela as coisas são diferentes. Elas acontecem independentemente de nossas intenções de disciplinar o fluxo,  guardá-lo ou congelá-lo. Não é possível gerar artificialmente escassez introduzindo processos de votação ou preferência. É possível arrebanhar as pessoas em um espaço participativo para depois conduzi-las. Quando a interatividade aumenta, é porque os graus de conectividade e distribuição da sua rede social aumentaram, ou, dizendo de outra forma, os graus de separação diminuíram e o mundo social se contraiu.

Por fim, confunde-se redes com mídias sociais. Redes sociais existem desde que existe sociedade humana, com pessoas interagindo. Pode-se interagir utilizando diferentes mídias: gestos, sinais, conversas presenciais, tambores (como faziam os pigmeus), sinais de fumaça (como faziam os Apaches), cartas… por aí vai. Ao confundir os sites da rede (as mídias sociais) com as redes, estamos dizendo que não existe uma rede (uma realidade social) se não houver um site (um artefato digital).

O que é um “netweaving”?
“Netweaving” é a criação de novos mundos e uma palavra melhor e mais correta para designar o que antes chamávamos de “networking”. Significa animação e articulação de redes. Com esse conceito, o “netweaver” é o agente, a pessoa que anima e articula redes.

Como podemos nos tornar um?
Nenhuma dinâmica, técnica, ferramenta ou tecnologia é realmente essencial. O desafio é articular e animar redes distribuídas de pessoas. Toda pessoa tem essa capacidade. Não fosse assim, não poderiam ser seres políticos e a democracia jamais poderia ter sido inventada e reinventada. “Netweaving” não é uma fraternidade de gênios e seres notáveis, dotados de faculdades e qualidades excepcionais, super-humanas. É você! Se você optar por não fazer, nada se modificará no mundo em que vive, mas você não poderá sair do mundo que lhe impuseram e no qual está aprisionado. É preciso ser mais do que é, ser o que você pode ser como revelação ou descoberta do que você é.

Que efeitos podemos destacar nessa popularização das mídias sociais?
A rigor não se sabe quais efeitos essas mídias podem ter a longo prazo. Mas, em princípio, quanto mais pessoas conectadas, por qualquer meio – sobretudo por aqueles em tempo real e interativos – menor fica o mundo em termos sociais (“small-world networks”), ou seja, caem os graus de separação e você passa a ter menos intermediários para chegar a qualquer pessoa do planeta. Isso altera a fenomenologia da sociedade. Com o aumento dos graus de distribuição da rede social, aumenta também a conectividade e a interatividade. Com o aumento da interatividade manifesta-se uma nova fenomenologia que altera a natureza daquilo que chamávamos de sociedade.

Quão “real” é esse encurtamento?
O encurtamento é efeito de “crushing” (amassamento) do mundo, porque, com a multiplicação de caminhos pode-se chegar mais facilmente ao outro, qualquer-outro. Twitter e Facebook, mas não só eles, são ferramentas (mídias sociais) que contribuem muito para isso. São várias as possibilidades que eles trazem, mas não se deve achar que a sua rede se resume a eles.

Você afirma que as redes sociais são muito mais antigas do que as pessoas se dão conta. Qual a origem dessas redes?
A origem das redes sociais é o que chamamos de sociedade humana. O que se convencionou chamar de redes hoje em dia são apenas ferramentas, que podem ajudar ou não na formação delas.

Essas ferramentas criam relações fragilizadas?

Depende do que se quer dizer com a palavra “frágil”. Elas são fortíssimas na medida em que mais e mais pessoas aderem a elas, o chamado “efeito rede”. Nada impedem que essas relações tenham sorte e adquiram resiliência, impedindo que sejam destruídas.

Ainda é preciso saber explorar mais o potencial que essas mídias oferecem?

Não existem mais conceitos como “O Brasil” ou “O mundo”. São abstrações. Não são comunidades concretas. A maneira de explorar o potencial das mídias sociais é interagindo nelas e não apenas participando. Quanto mais interação houver, maior será o potencial, ou melhor, mais será dinamizado tal potencial.

Essas pesquisas que apontam que as reclamações nas mídias funcionam melhor até do que o Procon são um exemplo da força?

Sim, se acharmos que “força” é isso. Muitas empresas já entenderam que uma reclamação replicada no Twitter pode causar um prejuízo incomparavelmente maior do que uma ação judicial movida por um consumidor.

É um exagero, por exemplo, terem colocado o Rafinha Bastos como um dos caras mais influentes do mundo por sua atuação no Twitter?

Sim, é um exagero. Não foi pela sua atuação e sim pelo número de seguidores. O que não significa quase nada em termos de interação. É raro vê-lo interagindo com sua “rede”. Ter muitos seguidores é broadcasting – um para muitos – e não interação.

As mídias sociais mudaram a maneira como se consome informação e cultura?

O que aconteceu recentemente foi que as mídias sociais ficaram mais velozes e interativas. Isso teve um efeito sobre as redes sociais, que ficaram mais distribuídas, mais conectadas e mais interativas.

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* Entrevista de Rafael Braz, extraída no site da Gazeta Online. 
rbraz@redegazeta.com.br

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